O termo "devir" tem raízes antigas na filosofia, com Heráclito de Éfeso conceituando-o como um elemento de transformação e alteridade inerente ao que é. Este devir é visualizado como um fluxo constante de transformações antinômicas que, apesar do conflito, coexistem e geram um ser constantemente transformado. No fragmento 51, Heráclito concebia o devir como a essência intrínseca do ser, salientando a ideia de que as oposições se unem em uma harmonia oculta, tal como ele expressa: “Não compreendem como concorda o que de si difere: harmonia de movimentos contrários, como a do arco e da lira”. Em sua filosofia expressa por aforismos, Heráclito via o devir como a própria natureza da mudança que perpetuamente redefine o ser (ANAXIMANDRO et al., 2017). Tal conceito de sua origem grega, reverberou ao longo da história da filosofia no hemisfério norte, inspirando pensadores como Hegel (2017), para quem o devir representava a superação dialética, que desmistifica os processos de diferença no ser a partir da constatação de uma unidade (essência) no devir, e Nietzsche, que entendia no devir por relações e construções históricas em uma manifestação incisiva da afirmação da existência; que não deve ser interpretado como evolução ou como a conquista de uma supremacia do ser, ou seja, não é um processo de evolução. O devir é imprevisível, pois não se atrela a um ideal abstrato, mas à realidade tangível do ser. (SILVA; GOMES, 2013), devir então é "tornar-se o que se é" como sintetiza o filósofo, inspirado no poeta Píndaro (2018).  Já na filosofia contemporânea, o "devir" é retomado por Gilles Deleuze e Félix Guattari, que o descrevem como um processo contínuo e não linear de transformação, onde algo se torna diferente, superando a imitação ou identificação fixa (DELEUZE; GUATTARI, 2012b). Este conceito ganha importância em diversas áreas, como na pedagogia, na qual sua estrutura rizomática é vista como uma abordagem não hierárquica que realinha as relações de ensino, com o devir desempenhando um papel crucial nas relações dinâmicas entre professores e alunos (LOPES; VIEIRA, 2023). Dentro do pensamento quilombola o devir, segundo Antonio Bispo dos Santos, se afirma no entendimento que as vidas não têm fim. "A geração avó é o começo, a geração mãe é o meio e a geração neta é o começo de novo” (SANTOS, 2023). Essa concepção de tempo e de continuidade presente na filosofia quilombola enfatiza a circularidade da vida, onde o começo e o fim se entrelaçam e cada geração é, ao mesmo tempo, um começo e um recomeço. Essa perspectiva valoriza a ancestralidade, a transmissão de conhecimentos e a importância de acompanhar trajetórias e não construir teorias que se fixem em um momento no tempo. “Somos povos de trajetórias, não somos povos de teoria. Somos da circularidade: começo, meio e começo".  Assim, se para Heráclito no fragmento 103: "princípio e fim se entrelaçam na circunferência do círculo", a novidade trazida pelo pensamento quilombola para o devir está materializado na expressão “começo-meio-começo”: além de representar a ideia de uma trajetória contínua, está em pensar um continuidade de começos e meios sem fim, com os diferentes estágios da vida entretecidos e que se reiniciam constantemente, nessa temporalidade não linear, que valoriza a ciclicidade e a interdependência entre as gerações. Podemos representar o Devir como o [[Rizoma]] ou a Malha